segunda-feira, Maio 31

Visita matinal

(Clique para se assustar)

Aparece por volta das seis, a aproveitar a frescura da manhã para um passeio pelo pátio. Sobe o muro. Desce do muro. Encosta-se aos vasos, indiferente aos cães e aos gatos que olham desconfiados o estranho pançudo. Dá uma derradeira volta. Desaparece no buraco subterrâneo onde corre um fio de água.

domingo, Maio 30

Contágio


Há aquelas doenças que se transmitem por picadela ou contágio, e o mesmo acontece com as decepções, os aborrecimentos, as circunstâncias de certos momentos da vida. Tenho a ideia de que em alturas dessas seria bom podermo-nos esconder num buraco até que os maus ventos passassem, mas além de impraticável tudo nos obriga a intercambiar, interagir, participar e, fazendo das tripas coração, gastar tempo em aparências.

Não agradeço o que devia agradecer, não rio do que devia rir, ando a modos de estonteado, sem descobrir qual a ponta que ajuda a destrinçar a meada.

Fuja de mim, porque estou certo que isto se pega.

sexta-feira, Maio 28

A Morte


É irrelevante que eu deteste enterros. Aborrece-me o carpir de circunstância, mas também sofro com dificuldade o verdadeiro pesar e por pouco se me enchem os olhos de lágrimas. A ideia que então tenho não é a de que testemunho um momento solene no campo santo, sim que me encontro numa espécie de ensaio teatral em que cada um dos presentes improvisa o seu papel.

Goste ou não goste, há que cumprir as obrigações, de modo que lá fui ontem a um funeral.

Préstito, missa de corpo presente, homilia, demasiado choro para ser de todo sincero e sentido, feito o enterro formaram-se pequenos grupos para o caminho de volta.

No meu vinha um cunhado do falecido, e esse tinha uma história para contar. Dois dias atrás a viúva aproximara-se da cama onde o infeliz jazia entrevado e, com grande susto, viu-o rebolar os olhos, erguer o braço direito, acenar depois umas quantas vezes um furioso não.

- A minha irmã ainda lhe perguntou o queria, mas ele há tempos que não podia falar. Sentiu então no quarto uma corrente de ar muito forte e teve a certeza de que ele tinha visto a Morte, que não ia durar muito. E de facto...


Deve ter sido impressão minha, mas no grupo era eu o mais idoso, e porque no momento se levantara uma aragem pareceu que se afastavam ligeiramente e me encaravam de um modo esquisito.

Detesto enterros, palavra.

quinta-feira, Maio 27

A melhor das companhias

Que tenha entrado neste blogue porque quis, ou simples acaso, agradeço-lho de igual modo. Sabe porquê? Pelas ilusões que me dá.

Mulher ou homem a começar a vida, na meia idade ou com um pé na cova, imagino-lhe um aspecto físico e cubro-a/o de virtudes. Empresto-lhe também umas quantas qualidades que aprecio no meu semelhante, sobretudo aquelas que em mim escasseiam.

Vive você em Penamacor, Torres Vedras, Manaus, na Ilha do Sal? Em Cascais? Na Noruega? Que isso não obste. A imagem que de si faço é dinâmica, culta, bem humorada e saudável, cosmopolita. Claro que tem um pendor artístico, gosta de Mahler, possui um refinado humor, valoriza a nuance e o subentendido, leu mais que o bastante. Em certas ocasiões franze o sobrolho com aquilo que escrevo, mas não mo leva a mal, antes pelo contrário, pois pertence ao número dos civilizados que compreendem e aceitam a diversidade dos pontos de vista. De longe a longe sorri comigo.

Anónimo ou quase, silencioso, invisível, presente e contudo distante, você é o perfeito interlocutor e a melhor das companhias.

quarta-feira, Maio 26

A viola

Nunca teve muitos praticantes, a bela arte de meter a viola no saco. Corrente é o tirá-la de lá e dedilhar, ora inconveniências, ora asneiras, sem cuidado nem preocupação de se interrogarem se o outro é servido.

Quando estou de melhor humor digo-me que deve ser do tempo, ou porque anda a Lua em quarto minguante, noutras ocasiões oiço calado e tomo depois uma aspirina.

De momento parece que os atraio, os impertinentes que começam por um elogio chocho e me explicam então que, no texto tal, eu deveria ter eliminado o segundo parágrafo, "porque ficava muito melhor." Lamentam também a secura e o laconismo do que escrevo, inquirindo com ar fino se será por estar "há tantos anos lá fora." Muito proveito tiraria eu, dizem, se lesse a prosa de X, autor de dois belos romances e uma antologia poética.

Aí já não dedilham. À desgarrada e em ré maior desatam a cantar o talento de X, "que esse sim, esse é que merecia o Nobel!" Hão-de me trazer o primeiro livro dele, e vou ver "como é que se escreve."

Quem nesses momentos me vir sorridente, silencioso, a dizer que sim com a cabeça, saiba que estou a invocar a divindade, solicitando ao Altíssimo que a paciência com que sofro seja tomada em desconto dos meus muitos pecados.

terça-feira, Maio 25

Ontem à tarde


(Clique para aumentar)

Ontem à tarde quedaram-se os olhos um minuto, sossegou a alma um instante, talvez dois.

segunda-feira, Maio 24

Viajantes


Viram mundo. Provam-no com relatos, fotografias, vídeos, por vezes até uma dúzia de linhas de gazeta. Viram mundo, viajaram muito, foram aos longes onde tudo é exótico, mas só defeito de nascença ou desarranjo da cabeça explicará tanta boçalidade.

Comentam o que viram com um entusiasmo que quer passar por original e é apenas um triste refogado. Conhecem gente. Mencionam datas, casos. Viveram tantas situações em simultâneo que se diria terem herdado a ubiquidade antonina. São simples. Arrepanhando os lábios ou de queixo descaído, sofrem da pedantice triste dos que papagueiam fiapos de conhecimento mal atado. Têm opiniões. Aborrecem. Viram mundo, mas ao ouvi-los pergunta-se a gente em que desertos se terão perdido.