Quando entrou telefonava encostada ao parapeito da varanda. Fez-lhe um aceno. Ela correspondeu e voltou-lhe as costas, teve a impressão de que também baixara a voz.
Abre o jornal, mas logo o põe de lado, olhando-a distraído. Ciúmes não tem, nem desconfiança, isso era fase passada, agora entre ambos só pequenas irritações que mantêm dentro do ainda aceitável.
Penosa, a frieza com que por vezes a encara, atentando em ninharias, a cor de uma blusa, meias de desenho bizarro, maneirismos que de súbito o irritam, o modo nervoso de tossir.
Tem o sentimento de que qualquer coisa está a findar, um sentimento vago de desconforto, de anos perdidos.
Está de novo encostada ao parapeito. Sorri. Fala com um entusiasmo que lhe desconhece e sacode o cabelo num jeito de rapariga, um despropósito naquela idade. Meu Deus! Será que fui cego? Que me tornei outro? Teremos mudado tanto?
Ela aproxima-se sorridente, dá-lhe a face a beijar.
- Era a Mimi.
Sorri também, desinteressado. Não faz ideia de quem a Mimi seja, nem lhe importa. Um amante? E ao mesmo tempo não evita o pensamento cruel:
- Com aquele cor...? Naquela id...?


