quarta-feira, março 31

Era a Mimi

Quando entrou telefonava encostada ao parapeito da varanda. Fez-lhe um aceno. Ela correspondeu e voltou-lhe as costas, teve a impressão de que também baixara a voz.

Abre o jornal, mas logo o põe de lado, olhando-a distraído. Ciúmes não tem, nem desconfiança, isso era fase passada, agora entre ambos só pequenas irritações que mantêm dentro do ainda aceitável.

Penosa, a frieza com que por vezes a encara, atentando em ninharias, a cor de uma blusa, meias de desenho bizarro, maneirismos que de súbito o irritam, o modo nervoso de tossir.

Tem o sentimento de que qualquer coisa está a findar, um sentimento vago de desconforto, de anos perdidos.

Está de novo encostada ao parapeito. Sorri. Fala com um entusiasmo que lhe desconhece e sacode o cabelo num jeito de rapariga, um despropósito naquela idade. Meu Deus! Será que fui cego? Que me tornei outro? Teremos mudado tanto?

Ela aproxima-se sorridente, dá-lhe a face a beijar.

- Era a Mimi.

Sorri também, desinteressado. Não faz ideia de quem a Mimi seja, nem lhe importa. Um amante? E ao mesmo tempo não evita o pensamento cruel:

- Com aquele cor...? Naquela id...?

Torre de Moncorvo



Anda por longe? Tem saudades? As fotografias são de ontem à tarde. Clique para aumentar.

terça-feira, março 30

Cacetada

Masoquismo à parte, pouco há de tão gratificante como receber uma cacetada seguida de um afago. A propósito do post de sexta-feira 26/03, intitulado "Uma bomba, Senhor!", recebi o elegante mail que segue:


Ex.mo Senhor J. Rentes de Carvalho,

Não sou, nunca fui, de achar que "há coisas que não se dizem", nem de crer em patetas superstições sobre a invocação da morte e de certas calamidades. Mas devo dizer-lhe que, embora com plena consciência do que me rodeia e apesar das enormidades que se dizem por aí, há muito tempo que uma afirmação não me chocava tanto. Não se trata de defender o direito à vida dos pulhas e trafulhas, ou por outro lado dos sofredores em geral, que isso cada ser humano vale pelo que vale, seja o meu vizinho do 5º esq. em Lisboa ou uma criança a morrer de fome em África: muito pouco, na imensidão das coisas, sendo certo que uns conseguem valer ainda menos do que os restantes. Do que se trata nem vale a pena explicar-lhe, porque sabe com certeza. Talvez possa catalogar esse seu post sob a etiqueta das "Grandes Imbecilidades". Sem ofensa, que grandes imbecilidades todos proferimos, nem que seja uma vez na vida. Que esta tenha sido a sua e que possa agora seguir caminho, com a qualidade e o interesse a que nos habituou.

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Prezada Senhora,

Veja o que são as coisas. Até à data era eu conhecido por indivíduo que, à semelhança dos mais, uma vez por outra caía a dizer asneiras. Agora vem a senhora alegrar-me com a nova de que fujo ao comum e mostro ter intelecto para debitar uma que merece ser etiquetada entre as "Grandes Imbecilidades". Creia que lho digo com franqueza: sinto-me honrado e surpreso de ter merecido a sua atenção. Além disso, o que também é de agradecer, fez-me sorrir.


Cordialmente,

J. Rentes de Carvalho


PS. O Altíssimo sempre ignorou as minhas preces, mas agora, promovido a uma categoria superior, nunca se sabe.

segunda-feira, março 29

Sábado ao almoço

No sábado tinha sido o almoço de costume. Sopa, bifes de cebolada, arroz doce para ela, para ele uma laranja, porque anda preocupado com os diabetes. A banana, depois, foi "para tapar o buraco". Falavam pouco, olhavam desinteressados para a televisão, um programa qualquer daqueles americanos com riso enlatado, uma história de poucos pés e nenhuma cabeça. Arrumaram a loiça, ele acendeu um cigarro e, hábito de anos, saíram para um cafezito no "Bernardo".

Dormiram a sesta. Estava no quintal a podar os mamões da oliveira quando ela apareceu à porta da cozinha. Mal disposta, pelos jeitos.

- Ouve lá, também deitas a língua de fora nas minhas costas?

- O que é que te deu?

- Como o gajo na têvê. Bem te vi rir, mas digo-te uma coisa...

- Não dizes nada. Cala o bico.

Ia baixar-se a apanhar os galhos, mas parou ao vê-la aproximar-se, desfigurada, a boca torcida num ricto de demência.

Frente a frente, quase a tocar-se, ele segurando a tesoura às mãos ambas, o corpo num tremor. Ficaram assim um longo momento e finalmente ela afastou-se, hesitando aqui e ali, até que desapareceu na cozinha.

Começava a escurecer quando a ouviu gritar que a ceia estava pronta.

sábado, março 27

Fim de linha


Quase a chegar aos sessenta, ele há muito sabe ter perdido o comboio. Ter perdido os vários comboios que passaram na sua vida. Umas vezes por não se dar conta, outras por atraso, algumas por distracção, mas também, e a si próprio o confessa com mágoa, por ter desdenhado da oportunidade.

Ela, a meio dos vinte, ainda não sabe que na vida há comboios e apeadeiros, transbordos, estações fim de linha.

O acaso juntou-os numa livraria, involuntariamente a sorrir quando, quase em simultâneo, perguntaram ao empregado pelo mesmo título. Hesitaram na caixa, hesitaram depois à saída, por fim foi ela que tomou a iniciativa, falando do livro, ele a dizer que conhecia o autor, ambos descobrindo com surpresa a esplanada ali em frente, e que sim, estava uma tarde linda,

- Café?

Os sorrisos, os interesses comuns, o modo de se verem a completar a frase que o outro tinha começado, tudo era anúncio do que poderia acontecer. E aconteceu. Romance, paixão de verdade, mas também fogo fátuo que os desencontros e as incompreensões depressa extinguiram.

Para ela foi o primeiro comboio, e quis perdê-lo, certa de que muitos virão. Imóvel no cais, ele sabe que se apeou do último.

sexta-feira, março 26

Uma bomba, Senhor!


Foi na passada terça-feira, continua a doer. São sete da manhã e, hábito antigo, oiço as notícias da NOS, a estação oficial da rádio holandesa. Não há desastres de maior nem muito para informar, o programa termina com as previsões da meteorologia e a situação nas estradas.

Distraído, deixo o aparelho ligado, não atento na lengalenga da publicidade, acordo ao ouvir o nome de Portugal. Três economistas e dois políticos discutem a crise económica que afecta a Grécia e o nosso país, e eu, à medida que os oiço, vou encolhendo, vou-me envergonhando, cresce em mim a dor e a raiva da impotência. É a análise detalhada e fria do nosso atraso, da nossa fraqueza e desleixo, da incrível corrupção, da incompetência, da mendicidade que nos rebaixa.

Durante uma longa hora oiço o que preferia não ter ouvido, porque uma coisa é o conhecimento do que somos, bem outra é ouvir de estranhos e sem rodeios a verdade que nos dói.


Num dos meus cadernos de notas guardo um recorte da primeira página do Le Monde de 24 de Outubro de 1967, um pequeno quadro com o título Il suffirait d'une bombe, Seigneur! No texto o jornalista refere que no dia seguinte, na cerimónia da coroação do Xá da Pérsia, à qual assistiria um bom número de ditadores, tiranos e tiranetes, uma única bomba sobre o palácio imperial seria bastante para livrar dessa cáfila os países sofredores.

Assim é que desde terça-feira ando com uma ideia e faço uma prece. A maioria dos pulhas, trafulhas e traficantes que saqueia Portugal, vive em Lisboa. Bastará um terramoto, Senhor! Pagarão também os justos pelos pecadores, mas para um sem-número a morte será um alívio. Para os pobres, os esfomeados, os desempregados, os que sabem que vão perder o emprego, os idosos sem amparo, os que vivem no terror das contas e dos fins de mês, a pobreza envergonhada, tantos mais.

Um terramoto, Senhor!