quarta-feira, Dezembro 15

Contribuição para a campanha presidencial

Isto foi publicado num diário meu em Julho de 1999. Coloquei-o depois aqui em Março de 2007. Acontece, porém, que a memória dispara cada vez que o personagem me aparece num jornal ou na internet, e repetir o texto é uma forma de exorcismo.
Presidente? Não precisamos. Levante-se o Bandarra. Retorne Nossa Senhora a Fátima em aparição demorada. Venha uma peste que limpe de vez a caterva de políticos, sanguessugas e ladrões que traz o país a saque, nos faz miseráveis e nos envergonha.     

Almoço na embaixada em Haia. Dos sete que ali estamos a beber cocktails e a debicar petiscos, quatro são embaixadores, dois são altos-funcionários. Eu, a ovelha negra do grupo, pergunto-me no íntimo a razão da minha presença.
O convidado que faltava, homem importante da política portuguesa, figura histórica da Revolução de Abril, entra jovial, charuto na boca, rotineiro nos abraços e apertos de mão.
Veio de São Petersburgo esta manhã, foi de corrida à Mauritshuis ver o Vermeer, e a hora de atraso despacha-a ele com uma sonora gargalhada e o anúncio de “Isto é um país organizadíssimo em tudo! Menos no trânsito!”
Há os sorrisos de circunstância enquanto o homem se senta num fauteuil, estende as pernas, tira outra fumaça do charuto e, sem olhar o empregado que o serve, pega o copo de whisky. Desconcertante atitude em tão eminente paladino das massas trabalhadoras.
Bebe uma golada, dá uns estalinhos com os lábios a saborear, e a partir desse momento, cheio de si, despeja sobre nós uma enxurrada de considerandos, pontos de vista, análises, memórias revolucionárias, dados biográficos seus e alheios.
Achar estonteante fica aquém da realidade. Vamos para a mesa e ele continua, indiferente a uma ou outra observação, feita mais por cortesia do que interesse, pois o discurso com que nos maltrata não se eleva acima dos lugares-comuns.
Bons diplomatas, os outros comem em silêncio, acenam de vez em quando que sim. Eu, mal humorado pelo egocentrismo do personagem e o rompante do seu modo, não consigo evitar de franzir o sobrolho e que se me descaiam os cantos da boca.
O anfitrião, esse não sabe para onde se voltar. Sorri, olha em redor com uma calma que esconde mal o seu embaraço. No instante em que servem a sobremesa e o homem durante uns segundos se cala, o embaixador aponta para mim, e com um riso histérico avisa o político:
- Tenha cautela! Olhe que ele ouve tudo! Ainda é capaz de o pôr num livro!
Encaramo-nos, surpresos daquela tirada pouco diplomática, alguns sorriem, o visado não dá mostras de ter ouvido. Mastiga uma garfada de bolo, passa o guardanapo pelos lábios, estende os braços no modo de quem se apoia a um rebordo de tribuna: “Como eu dizia há pouco, não se devem minimizar as implicações geopolíticas da situação nos Balcãs. E a meu ver, o que acontece em África...”
Na rua olho o relógio. Passam uns minutos das cinco. Sinto maior cansaço que depois dum dia de trabalho.
Pô-lo num livro? Talvez. Quando precisar dum palhaço.