sexta-feira, maio 28

A Morte


É irrelevante que eu deteste enterros. Aborrece-me o carpir de circunstância, mas também sofro com dificuldade o verdadeiro pesar e por pouco se me enchem os olhos de lágrimas. A ideia que então tenho não é a de que testemunho um momento solene no campo santo, sim que me encontro numa espécie de ensaio teatral em que cada um dos presentes improvisa o seu papel.

Goste ou não goste, há que cumprir as obrigações, de modo que lá fui ontem a um funeral.

Préstito, missa de corpo presente, homilia, demasiado choro para ser de todo sincero e sentido, feito o enterro formaram-se pequenos grupos para o caminho de volta.

No meu vinha um cunhado do falecido, e esse tinha uma história para contar. Dois dias atrás a viúva aproximara-se da cama onde o infeliz jazia entrevado e, com grande susto, viu-o rebolar os olhos, erguer o braço direito, acenar depois umas quantas vezes um furioso não.

- A minha irmã ainda lhe perguntou o queria, mas ele há tempos que não podia falar. Sentiu então no quarto uma corrente de ar muito forte e teve a certeza de que ele tinha visto a Morte, que não ia durar muito. E de facto...


Deve ter sido impressão minha, mas no grupo era eu o mais idoso, e porque no momento se levantara uma aragem pareceu que se afastavam ligeiramente e me encaravam de um modo esquisito.

Detesto enterros, palavra.