quinta-feira, abril 29

Quadrado negro



Nos últimos dois meses li bastante. Literatura portuguesa moderna. Nove livros alinhados à minha frente, de modo a avivar a memória. E, não vá alguém julgar que minto, afinal nove livros é muito livro, por certo exagero, digo já que devo ter lido e folheado em partes iguais.
Dei-me a essa tarefa com genuíno interesse, desejoso de saber o que produzem os jovens colegas que ainda não chegaram aos cinquenta.
Não se alegre quem espera ver-me agora azedo e venenoso, ou tristonho de descobrir que não há grandes nomes de dimensão igual aos grandes nomes do passado. O passado passou, grandes nomes virão. Por enquanto não há.
A verdade é que fiquei confuso, e de certo modo preocupado, ao descobrir o fosso aberto entre o meu atraso – digo isto sem ironia – e as vanguardas que já se movem num futuro que, de tão remoto, ultrapassa de longe a minha capacidade de ajustamento.
Que haja muito sexo na literatura moderna, é compreensível. Fantasias extremas, também aceito. Orgias, trios, quartetos, necrofilia, mães fodendo filhos e vice-versa, pais e filhas, filhos, irmãos, noras, sogras, tudo bem. Aliás, o "fodendo" que se lê acima não o pus ali por acaso, é que o verbo foder deixou de ser expressão chula para se transformar em ferramenta que empresta impacto às descrições e assim ajuda a que o leitor visualize e mentalmente participe.
Esses livros que li, e os que folheei, contêm patologia em abundância. Depressões, insatisfações, lesões, aberrações, traumas, medos, pesadelos, há ali de tudo sem peso nem medida, nalguns casos dezenas de páginas em que o personagem detalha o que sofre, o muito que sofre, o que já sofreu, o que receia sofrer, o que talvez nunca sofra.
Encontrei tanta homossexualidade que, fosse eu mais influenciável, passaria a olhar desconfiado para o meu semelhante masculino. De tantas em tantas páginas lá vem um enrabanço, lá está o gajo de joelhos a brochar o comparsa, ou então na cama, a tremer na deliciosa antecipação de se vestir de menina para receber o estivador. Tudo repetido, repetido, cansativamente repetido e refogado.
Prosa com alíneas, parágrafos, pontuação? Isso é do antigamente. Viva a frase curta. Num livro com duzentas e vinte e sete páginas, às tantas comecei a estranhar e fui-me a contas. Poucas frases excediam as seis palavras, nenhuma as dez.
Um outro, talvez para que o leitor sinta melhor a escuridão da vida, tem entremeadas umas quantas páginas negras. Sem palavras, a imitar o célebre "Quadrado Negro" de Kazimir Malevitch (1878-1935). Um terceiro é tão moderno que se divide em partes de géneros diferentes. A primeira consta de frases telegráficas. Vêm depois noventa e duas páginas de poesia, ou do que parece poesia. Finalmente, sem pontos, vírgulas ou espaços, uma frase, uma apenas, irreal, a alongar-se por cinquenta e duas páginas com milhares de letras. Só maiúsculas. E, sim senhor, terminando num choro convulso a acompanhar o esperado e muito orgástico enrabanço do cadáver.

Conclusões? Prefiro não tirar. Ou talvez uma: a de que o meu atraso é sem remédio.