sexta-feira, novembro 6

"Dormi com o Urbano!"

Sempre foi assim e não é agora que vai mudar. Vaidosa, egocêntrica, rapariga bonita em tempos muito idos, por razões que só ela sabe inventou-se um passado em que os factos verificáveis engenhosamente se entrelaçam nos da fantasia. Com a perícia de quem tem a mentira no sangue, no momento preciso mostra retratos, cartas, papelada, mas antes que se possa ver melhor, ou controlar, já ela mudou de assunto e, malabarista, recolheu as provas.

Fala muito do que fez, do que testemunhou, tem artes de teatro quando começa a gesticular e facilmente nos transporta para as ruas de Lisboa "naquele fabuloso 25 de Abril". Lá vem uma fotografia:

- Em cima do Chaimite, estão a ver? Entre aquele rapaz e o soldado. Sou eu.

Mas antes de se poder olhar já a foto sumiu, substituída pela de uma manifestação.

- Esta era dos maoístas. Não tenho a certeza, a Joana é que diz que este que leva a bandeira é o Barroso. Deve ser. Pela cara parece.

Não importa que seja. A visão breve, a menção do nome, aquele sorriso em que ela mistura nostalgia, entusiasmo e testemunho, o efeito é seguro.

- O Cunhal! O Álvaro Cunhal! O que eu senti por este homem!

A fotografia passa de mão em mão, volta ao saco, ela agora arrebatada a falar do Bairro Alto naquele "glorioso e inesquecível dia":

- Vocês não viram, não podem imaginar a festa que aquilo era! As ruas cheias! As pessoas aos abraços e aos beijos! Os ramos de cravos!

Nos vinte e pico anos que a conheço devo ter assistido a uma meia centena de representações dessa peça de teatro em que ela, dotada de ubiquidade, testemunha todos os momentos altos da Revolução, conhece os heróis, de Soares a Spínola, Costa Gomes, Salgueiro Maia, a todos aperta a mão.

Os presentes sorriem, comentam com as frases habituais, e então, num suspiro, revirando os olhos que na verdade foram bonitos, anuncia o final:

- Foi nesse tempo que dormi com o Urbano! Ainda tenho um livro dele com dedicatória.

Cai o pano. Nunca mostrou o livro. Supõe-se, mas não há certeza de quem tenha sido esse Urbano.