sexta-feira, outubro 16

Esperanças e enganos


Andam ambos a enganar-se, vão ambos perder, e eu, no meio da história em que sem saber um do outro me tomaram por confidente, nada posso fazer para evitar o mau desenlace.

É um namoro à moderna: mails, internet, telemóveis, sms. Vêem-se pouco, conhecem-se mal, quase que só se encontram na companhia doutros, mas isso como que lhes aumenta a febre e é um não parar de declarações, confissões, arrulhos, projectos do que vai ser e como vai ser.

Ele quis-me mostrar uns mails em que ela lhe escreve coisas apaixonadas e as respostas que lhe deu. Estive a ponto de ceder à curiosidade, mas por prudência recusei.

Dias antes tinha-me ela dito que da sua parte é brincadeira. Acha-o jeitoso, mas mostra pouca inteligência, humor não conhece, de vez em quando tem de lhe explicar o evidente, e isso mata a graça. Ainda por cima, quase quarentão, vive com os pais. Confessou-lhe que só teve uma namorada e que a coisa acabou tão mal que estava convencido que nunca conseguiria... Mas agora!...

- É um querido, não achas? E gosta tanto da mãe!

O sorriso com que ela diz aquilo é de mau agouro. Mas mesmo que estivesse presente, o pobre não ia acreditar. Conta-me os sonhos. A casa que há-de construir perto da dos pais. Informou-se de qual será melhor para a viagem de núpcias: o México, as Seychelles, ou Paris. Se bem que Paris... E carro. Quer um novo. Já lhe perguntou de que marca gosta mais, mas ela não respondeu.

Andam ambos a enganar-se? Talvez não. Por vezes começa-se assim e acorda-se no altar.