segunda-feira, outubro 5

Bruxa

Tinham começado três anos antes e o negócio prosperava de tal modo que à padaria queriam juntar uma confeitaria. O problema era o bebé. Alegre e contente durante o dia, assim que à noite o levavam para a cama desatava a chorar. Revezavam-se os pais a embalá-lo e a acarinhá-lo, mas de nada servia e a criança só ao nascer do dia parava com os berros, Durava aquilo há meses, no casal começara a desarmonia, fisicamente pareciam dois espectros, os clientes notavam que havia mudança.

Foi então que alguém aventou que se podia tratar de mau olhado e nada se perdia em consultar a bruxa. Não a da vila, capaz de estar com o campo contrário, mas uma na cidade que também tinha fama de adivinha.

A bruxa, uma senhora de meia idade com ar de professora – conta ele – não o deixou entrar, dizendo-lhe que durante a viagem aborrecera a mulher, rezingando que era tempo perdido e que não acreditava em patetices. Pois se não acreditava, ficasse no corredor à espera.

Era realmente mau olhado, feitiçaria que lhes deitara um tio, invejoso da sua prosperidade. Fazendo com que o bebé passasse as noites a chorar, os pais não descansavam e o negócio acabaria por ir água abaixo.

Regressaram admirados do sono profundo em que o bebé caíra, admiraram-se ainda mais de se lhes terem acabado as noites em branco. Não se abriram com o tio, mas quando o encontram notam que torce a cara e sente que trazem figas no bolso.

Meses atrás voltaram à bruxa porque o prédio das novas instalações não andava nem desandava. Disse "a senhora do poder" que era inveja do primo engenheiro, "filho do outro", que eles tinham encarregado da obra. Despediram-no, e logo nesse mesmo dia tudo começou a correr bem, até a câmara despachou as licenças.


Desde que aqui cheguei, faz hoje três semanas, há alguém que todas as noites me desinquieta o cão. O carro nunca falhou, mas agora de vez em quando não pega. Anteontem torci um pé. Em volta da casa anda um enxame de vespas. De madrugada as traves dão uns estalos de mau agouro. Um quadro com uma vista de Amsterdam desprendeu-se e caiu em estilhaços. A excelente máquina fotográfica avariou.

Há bocado telefonei ao meu amigo padeiro e, pedindo segredo, ele lá acabou por me dar a morada. Amanhã vou à bruxa.