sábado, agosto 8

Morte próxima

(William Shakespeare (1564-1616)

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Isto seria assunto para o tempo de Inverno, quando as almas se inclinam mais para a seriedade. Tocar nele agora que os corpos e as cabeças pedem sol e se deleitam no vácuo, parece indicar uma tendência para o doentio.
Bem pode ser que assim seja, mas acontece que nos últimos tempos me tenho dado a leituras que têm tido em mim um duplo efeito: o de me perguntar porque escrevo, e qual é a utilidade da escrita.
O que ainda não há muito seria considerado estupidez passa hoje por bravura, e o sujeito que se orgulha dos muitos livros que leu faz triste figura no confronto com o ignoramus que, às gargalhadas, recebendo aplauso, desconhece Shakespeare e pergunta se o gajo joga no Manchester United.
A aborrecida realidade é que o mundo pode muito bem funcionar sem Shakespeare, Homero, Petrarca e Dante, mas vai-se abaixo sem os "analfabetos" que sabem de cálculos, máquinas, electricidade, física e economia. São os cientistas quem contribui para o verdadeiro progresso, não os letrados ou os artistas.
Leio e concordo: "Quer se queira quer não o status do intelectual está em decadência. A erudição impõe ainda uma forma de respeito (com ela pode-se ganhar fama na tv) mas o valor do saber é determinado pelo que com ele se pode alcançar na prática".
E assim me vejo eu, soldado de infantaria das Letras, a perguntar-me neste sábado à tarde que raio adianta o escrever, meu ou alheio. Para alguns será fonte de boa receita, mas o escritor já não se pode espelhar na importância de um Flaubert, um Zola, um Balzac, ou num mais próximo Thomas Mann. O tempo desses morreu. O nosso está moribundo. As trombetas do YouTube anunciam o que vai nascer.

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