segunda-feira, agosto 17

A máscara


São holandeses e boa companhia. Melhor dizendo: ela é boa companhia. Ele um sensaborão sorridente, de acordo com tudo e todos, e o hábito de passar os dedos sobre a cabeça a certificar-se que as farripas lhe tapam a calva. Não tapam.

Vivacidade tem ela de sobra. Adora a Andaluzia. Ao segundo uísque põe-se a cantar malagueñas e soleares, batendo o sapateado do flamenco com um entusiasmo de fazer inveja às chicas de Paco Peña

São ricos e um nadinha snobs. Óperas, vernissages, teatro em Londres, MOMA em Nova Iorque, bailados no Kirov, referem aquilo com o modo desprendido de quem esteve no supermercado.

Anos atrás, seguindo uma moda, deitaram-se a comprar arte africana, e com abundância de máscaras, esculturas, azagaias, saiotes, pulseiras, apetrechos de feitiçaria, instrumentos musicais, passarada, a sua casa ganhou um ar de museu.

Duas figuras avultam no conjunto, não pelas dimensões, uns vinte e poucos centímetros de alto, mas pela magia que, segundo o casal, as envolve. A acreditar no que dizem há noites em que as figuras misteriosamente se deslocam e aparecem noutra sala, noutra prateleira, viram-se as costas, tombam. Já aconteceu que o gato, passando junto delas, desatasse a soprar e a arreganhar os dentes como diante de uma ameaça, e uma vez por outra as lâmpadas inexplicavelmente esmorecem.

A gente ouve aquilo, põe a cara preocupada que ocasião pede, e muda de assunto.


Eu desde há muito tenho numa estante uma máscara indonésia. Não vou agora acreditar em bruxarias ou mistérios, e de facto nunca a vi mexer ou mudar de sítio, mas nunca se sabe. Em certas madrugadas tenho a ideia que detrás dela há uma presença. Pelo sim pelo não aceno-lhe um adeusinho, e com a outra mão escondida atrás das costas faço uma figa.