quinta-feira, agosto 13

Crime premeditado

Acredite quem quiser, verdade é que ando há anos a preparar um assassinato. Não recordo quantas voltas já dei aos planos, quantas vezes tentei arranjar um locus delicti plausível e fazer de modo a que haja surpresa e a vítima não encare o assassino. Mas a coisa não sai. Até me parece que seria menos trabalhoso matar a sério do que andar com estes planeamentos de escrita. O assassino não ata nem desata e a futura vítima continua a caminho do hotel onde se hospedou. Ontem, entre dois ataques de febre, a coisa avançou um pouquinho, mas continua nos preparos:

"Escondidas atrás da cómoda, eram recordação. A Makarov tirara-a do cadáver dum guerrilheiro e a Beretta tinha-a ganho ao póquer com o "Deus-te-valha", um chanfrado que ameaçava por tudo e nada. Mas as pistolas nunca tinham sido da sua simpatia, só nos filmes eram seguras e certeiras.

Teve-as um momento na mão, sem as desembrulhar da flanela, e repô-las no esconderijo, tirando de lá a faca que comprara na praia a um sueco. Faca do exército, tinha dito o rapaz, e de certeza era, mais baioneta do que faca, um dos gumes serrilhado."