sexta-feira, agosto 7

Ch'an


- Quero saber quem sou! De facto é isso o que dia e noite me ocupa, a busca do eu. Do verdadeiro eu.

Finjo-me atento, de vez em quando até sorrio, mas a maioria das suas palavras tem o conhecido destino de entrar por um ouvido e sair logo pelo outro.

Por natureza é um nadinha pedante. Seja qual for o tema da conversa, tudo relaciona com a sua tese sobre o Kildin Saami, uma das línguas do extremo norte da Europa, ou com o seu grau de mestre de Ch'an.

- Atenção! Para quem sabe pouco destas coisas Ch'an é o mesmo que Zen, mas há diferença! Ch'an é informal, pragmático, a relação entre mestre e discípulo não tem a severidade japonesa do Zen.

Interessa-me o assunto? Não interessa. Quero encontrar o meu verdadeiro eu? Não quero, acho até mais avisado não começar a busca.

Ele refere agora as subtis diferenças entre o Kildin Sami e um outro ramo dessa língua, o Skolt Sami, explica o significado cultural da Fenno-Scandinavia, retorna à necessidade do aprofundamento espiritual segundo as regras do Ch'an.

O seu vulto vai perdendo os contornos, a voz esmorece, entro involuntariamente num estado que para ele será de meditação transcendente, mas para mim é de invencível sonolência.