terça-feira, agosto 25

Beijos


Ando a mentalizar-me para ver se consigo uma outra atitude em relação ao beijo. Ao beijo social. Nasci numa família que não era de beijoquices e poucos beijos troquei com as namoradas da minha adolescência, porque eram daquelas que ao primeiro sinal de cio deixavam tudo e apertavam a saia às mãos ambas.

Em Paris passei do escasso ao excesso, pois aí o beijo era com frequência extensivo aos cães e gatos da família que se visitava. Chegado à Holanda agradou-me o bom uso, infelizmente abandonado, de fazer uma pequena vénia a acompanhar o aperto de mão. Com os exemplos da TV hoje em dia toda a gente quer pelo menos três beijos, num cansativo, ridículo, e em muitos casos pouco higiénico intercâmbio de chilreios e saliva.

Na medida do possível vou evitando, fico-me pelo encosto da face e dou um passo atrás.

Ando, pois, a mentalizar-me para fazer frente à situação que me espera quando, daqui a umas semanas, voltar à aldeia.

Pela força das telenovelas ou falta de carinho, certo é que à chegada, aos domingos à saída da missa, junto da carrinha do queijo, da do peixe, ou num preparo de conversa, o que lá há de mulheres, quase sem excepção idosas e em maioria viúvas, suga o rosto do viajante com um frenesim que, se não fosse público, passaria por duvidoso.

Negar-me, não vejo como, e dizer-me com a gripe mexicana é capaz de fazer com que redobrem os beijos, a encorajar-me para a grande viagem.