terça-feira, agosto 11

Ainda as férias

O avô aristocrático das nossas democráticas – a tentação é grande de dizer plebeias – férias, o Grand Tour, afirmam os historiadores que nasceu por volta de 1550, quando os lordes começaram a mandar os filhos visitar a França e a Itália, na esperança de que voltassem de lá com mais instrução e boas maneiras.

Nos séculos a seguir, fugindo aos frios da Escócia e às névoas de Londres, os lordes, tal aves de arribação, passavam o Inverno no doce clima da Côte d'Azur. Com esses e outros ricos vinham os colossalmente abastados príncipes russos. Conta Nabokov em Speak Memory que no início do século vinte os seus pais, que nem eram dos mais ricos, viajavam para a Riviéra em dois comboios. Num seguia o pessoal com a bagagem, mantimentos, cavalos e carruagens. Dias depois saía de São Petersburgo o outro, com a família e confortos hoteleiros.

Mas o Grand Tour como que abruptamente saltou dos salões para a rua. A partir da década de 30, quando os sindicatos franceses exigiram o mês de férias pagas, o privilégio foi alastrando, (*) e hoje, como sabemos, mais que um direito as férias como que se tornaram um fim em si, uma razão de vida.

Longe do meu propósito contradizer a necessidade que tem de descanso e diversão aquele que se esfalfa a estudar ou a trabalhar, ou aqueloutro a quem as tribulações do dia-a-dia põem de rastos. Ironizar seria fácil, mas injusto.

Dá-se porém o caso de que a minha visão do fenómeno é de certo modo deturpada pelo facto de viver num país onde, desde há muitos anos, as férias se tornaram uma espécie de panaceia que, fadiga do corpo ou mazela da alma, tudo alivia.

Morte de ente querido, desastre, desemprego, falência, aflição geral, quando comunica isso o holandês informa logo: vou-me de férias. E vai. Com uma média anual de quatro períodos de vacanças, nenhum outro europeu lhe leva a palma.

Rapazes e raparigas que acabam o secundário, tiram um ano de férias para ir correr mundo. Terminam a universidade, fazem o mesmo. No dia do seu divórcio a vizinha informou que tinha as malas feitas e abalava, a superar o percalço com seis meses de férias na Indonésia.

Sou eu invejoso ou espírito contra? De modo algum. E é desnecessário que me lembrem que têm muita razão os setecentos ou mais milhões de turistas que, de Janeiro a Dezembro, vão e vêm com o nervosismo de formigas.

O que quero dizer é que não acredito em férias, ou melhor: não acredito no valor terapêutico ou restaurador das férias. Uns dias de repouso poderão, talvez, muito talvez, aliviar um cansaço, mas viagem nenhuma, praia nenhuma, exotismo nenhum liberta dos pesos da alma e do coração.

As férias são bom negócio, e uma boa treta.

...............................

(*) Devagarinho, note-se. Nos anos 50, no Canadá, dez anos de trabalho davam direito a três semanas de férias, a gozar quando o patrão decidisse.