A probabilidade é grande que você não se levante como eu, às cinco da manhã. Nem que por volta das seis caminhe durante cerca de uma hora com dois cães no parque fronteiro.
Um à trela, porque desata a correr ao cheiro dos coelhos. Esse arrasta-me e obriga-me a marcha forçada. O outro vai solto, mas madraço que é atrasa o andamento. Segue-se o pequeno almoço geral.
Às nove, quase trinta quilómetros de ida-e-volta para levar os dois senhores a um bosque onde podem correr em liberdade. Almoço para todos.
Às três da tarde, passeio de meia hora no parque para alívio da bexiga e dos intestinos. Jantar às sete. Às nove e meia a ronda da noite, mais uma hora com muito farejar, festejar e ladrar com os semelhantes.
Entretanto há que fazer-lhes festas, levá-los ao veterinário, à tosquia… Eu, sempre atrasado, barbeio-me de três em três dias, faço o que posso para tratar do que não sofre demora, alinhavo isto, ajeito aquilo, remendo o outro, desculpo-me, agito-me, com alguma sorte caio na cama depois das onze.
Vida social? Nenhuma. Vida familiar? Idem. Divertimentos? Nicles. Televisão não vejo, jornais não leio. Livros? Uma página e turvam-se-me os olhos de sono. Sem internet nem me saberia no mundo. Às cinco o despertador volta a tocar.
Agora pergunto: quem é que no meio de tudo isto tem vida de cão?