Era pequenino, muito mexido, acompanhava o que dizia com os salamaleques a que se habituara na sua vida de lojista. Dessa vida guardara também o vestir irrepreensível, o vinco das calças, os sapatos lustrosos da graxa, a risca no cabelo, e um modo prestimoso que se tornava aborrecido com a repetição de "Ora faça o favor".
- Estava eu no consultório do Professor Abreu de Faria Perestrelo, tinha lá ido por causas dos meus problemas da coluna, quando a tal senhora entrou. Levantei-me, ora faça o favor, e diz ela…
Desagradável era também, quando se entusiasmava, o modo de pegar o interlocutor pelo braço. Porque uma vez agarrado, usava os dedos com a mesma intenção de quem sublinha o que escreve, e espetava as unhas, torcia, empurrava, puxava, abanava…
- Claro que tenho confiança nos médicos, e o Professor Abreu de Faria Perestrelo já me trata há muitos anos, mas numa situação dessas, ora faça o favor…
Vai hoje a enterrar. Liberto, enfim, de uma vida de muitos sofrimentos e reveses. Falido, passou de patrão a empregado, reformou-se, adoeceu.
- Ora faça o favor de ouvir. Só para o coração são vinte e dois comprimidos! Oito de manhã, seis ao almoço, outros seis antes do jantar, dois quando me deito.
Com a primeira mulher, uma desvairada, sofreu aflições que teriam levado outro ao manicómio ou ao suicídio. Dos braços dessa caiu nos da D. Micas. Granadeira na corpulência e no modo, amiga dos copos, sempre a avisá-lo durante as zangas:
- A casa é minha. Quem não está bem muda-se.
Para o hospital tinha ido sozinho, e quando ela a meio da tarde o foi visitar encontrou-o morto.
O que acima se lê é ficção com dois dedos de verdade. A ficção que se escreve para mascarar a surpresa, e o medo, de que uma longa vida cabe em meia página.