quinta-feira, outubro 16

"A Selva"


Teria uns dezasseis anos quando li A Selva, de Ferreira de Castro. Fez-me impressão, porque me tinham dito que era livro para ler e ficar impressionado.

Com andanças e mudanças o velho exemplar perdeu-se. Comprei depois outro, que não reli, pois as folhas continuam por cortar. Foi esse que há pouco me avivou a memória.

Uma tarde, num café em Paris, no começo dos anos 60, um amigo apresentou-me ao autor. Nessa altura era já pouco o que me impressionava, e Ferreira de Castro deu-me, sobretudo, a impressão de um senhor preocupado em excesso com a carestia da vida, os achaques do seu corpo e a necessidade de ir a Vichy para as águas.

Em determinado momento conversou-se sobre a rapina dos editores, e Ferreira de Castro contou então que, para garantir que os exemplares vendidos fossem devidamente facturados, mandava carimbar em todos o seu ex-libris.

Fui verificar no exemplar das folhas intactas, e de facto lá está. Também me pergunto quem terá carimbado as muitas dezenas de milhar de livros do autor d’A Selva. De um escritor de tiragens mais modestas sei eu que, quando isso ainda se fazia, sentava-se ele próprio na tipografia, de carimbo na mão.