quinta-feira, Outubro 9

Gatos sem unhas


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É pena que o tom vitriólico da crítica de Fialho de Almeida (1857-1911) n’Os Gatos, à política, às instituições e à sociedade do seu século, não tenha encontrado seguidores.
Em parte compreende-se. No tempo e tipo de sociedade em que vivemos são em demasia as cumplicidades, excessivas as cautelas, mais depressa se leva pena de prisão por um adjectivo do que por uma fraude, arrisca-se uma gracinha e adeus emprego.
Assim, da esquerda à direita são tudo punhos de renda, mãos de veludo, sabres de papelão, piruetas e malabarismos. Sobre os senhores que hoje mandam, nenhum colunista, cronista, analista, e os mais istas de serviço, mostra tê-los suficientemente no sítio para pintar retratos comparáveis aos que fez o homem de Vila de Frades:

“... assombra o predomínio que o tipo estúpido começa a ganhar na compostura (exterior pelo menos) dos nossos grandes funcionários! Há uma mistura de porco e cão de fila, de malandro e de títere, em muitas daquelas faces de primeiros oficiais de secretarias, de governadores civis, de tenentes-coronéis, de generais, de bispos, de deputados, de conselheiros d’estado e de ministros. Por sobre as golas das fardas, dos colarinhos altos de cerimónia, das voltas roxas, e dos grilhões simbólicos das sociedades sábias e das ordens militares, as papadas oleosas dizem nutrições prevaricadas, apoplexias de bílis odienta, intrigas rábidas, e satiríases secretas d’amor e vinho a horas perigosas... É ver-lhes o riso, uma careta, estudada ao espelho, para cada efeito cénico da vida; ouvir-lhes as vozes, de galãs professos ou pais nobres, destilando palavras maravilhosas, mas sem repercutir jamais sinceridades; e surpreendê-los por fim quando a máscara lhes tomba, e por detrás do cortesão surge o carnívoro, tigre ou hiena, que do seu antro segue o fio dum plano tenebroso, sindicato ou emboscada política, venda de pena ou venda de palavra.”
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in Os Gatos – 1o vol.- 1889