sábado, Outubro 4

A escrita

Já não quero, como aos dez anos, ser piloto de avião ou comandante de submarino. Escritor nunca precisei de querer sê-lo, porque foi dom que nasceu comigo, natural como caminhar ou respirar. Mas é condição que por vezes me pesa e faz ansiar por um destino menos complexo.

Hoje gostaria de ser um bom carpinteiro, um bom marceneiro. De ao fim do dia, contente com o trabalho feito, pousar a ferramenta e não ter de ouvir em permanência os ecos da minha insatisfação ; de escapar à tirania das frases que exigem harmonias e sentidos que tanto esforço custam e nem sempre lhes sei dar.


Faz o cérebro curiosas filtragens: ao escrever em português (a língua em que geralmente penso e em que escrevo) sou com frequência obrigado a deter-me porque, desde que possuam um sentido mais exacto, me ocorrem em primeiro lugar as palavras em holandês (a língua que mais falo) ou inglês (a língua que mais leio). Assim, em certas ocasiões, o escrever torna-se para mim uma exaustiva corrida de obstáculos de dicionário para dicionário.