sexta-feira, maio 16

Homenagem


Longe de mim o querer brincar com coisas sérias. A minha compreensão é grande, o meu respeito maior ainda, mas por razões várias, nem todas explicáveis, há fenómenos a que sou alérgico. A cultura, por exemplo. Não a Cultura com maiúscula, que eleva os humanos e os povos, mas a cultura abusada, a de pechisbeque, a baratinha, a que dá a ilusão de enriquecimento intelectual, e é negócio da China para habilidosos.
Sobre essa alergia conversava eu com um velho amigo, quase centenário, mas lúcido de inteligência, pragmático e, velha raposa jurídica, muito capaz em rebater argumentos. Desta vez, porém, para comum surpresa, achámo-nos de acordo. Espalham-se pelo país Casas da Cultura, Centros de Memória, teatros ao ar livre, museus… Os empreiteiros sabem de há muito o que é uma pechincha, e os pobres autarcas, assustados com a leviandade do eleitorado, fazem do seu melhor para mostrar que empurram os concelhos na marcha da modernidade.
Uma vez construídos os templos culturais, e atingida a quota limite de rotundas, monumentos e fontes luminosas, chega a ocasião de procurar uma figura nativa que se preste a ser homenageada em festividades de “índole cultural”. Há sempre alguém, mas para evitar raivas e inimizades dá-se preferência aos mortos.
O meu amigo e eu falávamos de um que será homenageado dentro em pouco. Porque ninguém nos ouvia, nem era necessário respeitar conveniências, repetimos o que já noutras ocasiões tínhamos concluído: como figura certamente era respeitável (poucas o não são), mas fraquito na prosa, com umas historietas meladas e personagens toscos. Aquilo a que os ingleses elegantemente chamam “a minor writer”, um escritor menor. Na verdade, porém, comparado a outros do seu tempo, mesmo esse qualificativo nos pareceu exagerado.
Deixando em paz a modesta arte do defunto, o meu amigo contou um saboroso episódio. Em 1961, no centenário do seu nascimento, a Câmara mandou erguer-lhe uma estátua. Porém, como sempre acontece, logo essa iniciativa dividiu os notáveis da terra em campos: os que aprovavam a beleza da obra e os que, misturando razões políticas, pessoais, outras ainda, eram ferozmente contra e a achavam feia. Acenderam-se os ânimos, geraram-se inimizades. Mas não tardou a que acalmassem, levados talvez pela necessidade de enfrentar um adversário comum: “a populaça inculta”.
Essa gente rude, com um inconfundível sentido do humor e ignorante de quem seria o homenageado, atentando apenas na figura e na cor do bronze, chamava-lhe simplesmente “O Preto”.