Domingo, Maio 11

Gente de cidade

Desconhecidos. Encostaram o Defender ao muro do adro. Gente de cidade. Dois casais. Vestidos a preceito para quem vem de visita ao Nordeste, o Portugal profundo. Botas das que atacam os pinos dos Andes, calças com muitos bolsos, chapéus de cobóiada.
Aproximam-se sorridentes. Um estaca, fareja o ar. O outro, pergunta jovial:
- Vossemecê é daqui?
Tomo o modo humilde que a ocasião pede, e respondo que sim senhor, sou daqui.
- Isto deve ser das tais aldeias abandonadas – diz a mais magra das duas.
Confirmo. Deste lado da rua há três casas habitadas. No outro cinco.
- Só?
- Só. Aonde há mais gente é no cemitério.
Olham-me inquietos, fingem outro sorriso e voltam-se para a Conceição, que sobe a rua apoiada ao cajado.
- Vossemecê também é daqui?
A Conceição, noventa e um anos, surda , quase cega com as cataratas, não enxerga quem são, pergunta-lhes se a Filomena já voltou do hospital e se amanhã é dia de feira.
Olham-na desnorteados e encaram-me, perguntando-se talvez porque sorrio. Finalmente viram costas, dando a impressão de não apreciar a bizarria do pitoresco, e que hesitam entre mostrar-se indiferentes ou deitar a correr para o Defender.