sábado, outubro 13

Despedidas (2)

Estranha sensação, a de ver esvaziar-se a casa que sempre foi para mim lugar imutável e uma espécie de ancoradouro, porto de abrigo. Tudo nela me é história que, daqui a pouco, começará a apagar-se.
Chegaram os vizinhos, sete ao todo, com três carroças para levar o que for pesado. Teriam vindo mais, porque em ocasiões destas são prestimosos, mas facto é que as forças de muitos não igualam a boa vontade, e isto vai ser trabalho que pede músculo.
A mim, que sou desorganizado, cabe-me o papel de coordenador, mas logo os mais novos se dão conta que é tempo perdido estar à espera das minhas ordens. Impacientes com tanta indecisão, mal me dão tempo de fotografar o meu passado, e começam a amontoar e a embrulhar com uma diligência de formigas.
Já os armários se esvaziaram de loiça e de copos, da cozinha foram-se as panelas, os alguidares, o esquentador, o fogão... Os móveis, desarrumados e uns sobre os outros, lembram as fotografias que os jornais publicam de casas desvastadas por terramotos.
Ao fim do dia, quando todos se despedem, arranjo um pretexto para ficar ainda, vou de um quarto para outro a sentir que me dói aquele desarrumo, a desordem de coisas fora do sítio, as marcas que os móveis deixaram nas paredes, os sinais de ruína. Ressinto-os como feridas que voluntariamente me inflijo e, estivesse no meu poder - sempre a desgraçada e inútil fantasia! - com a varinha mágica reporia tudo no lugar onde pertenceu.
Incomodado pela agitação e o barulho que fizemos desde manhã, o sardão só agora sai do buraco perto do tecto. Olha curioso, ou talvez desconfiado da minha imobilidade. Finalmente arrisca a cabeça, depois metade do corpo, desce devagar pela parede e pára, com certeza a estranhar o desarranjo e a poeira no soalho.
Caminho às arrecuas e de mansinho, não se vá sobressaltar. Da porta faço um gesto de adeus que, mais do que para o humilde bicho que por vezes me foi companhia, é de despedida para a irrecuperável parte de mim que ali deixo, com as suas dores e os seus sonhos, as alegrias que teve, as esperanças que perdeu.