sexta-feira, Outubro 12

Despedidas (1)

Alguns não o dizem de frente, mas lê-se-lhes no sorriso, entre irónico e meigo, com que ouvem também as caturrices dos velhos ou a tontura dos pobres de espírito: esta coisa de eu, à viva força, querer restaurar uma casa que está quase em ruínas. Ir gastar nela mais do que gastaria na construção de prédio novo, parece-lhes tolice tão grande que merece piedade.
Outros acusam-me de não saber de contas. Se o soubesse, ou Deus me tivesse dado menos cabeça para a fantasia e mais para os números, um simples cálculo provaria que a obra é contraproducente, seria medida avisada deixar o dinheiro no banco.Os mais rudes - mas esses são-o sem malícia, só por uma espécie de bruteza nata - acham-me desatinado porque, dizem, com a idade que tenho não me sobrará muito tempo para gozar casa nova.