sábado, setembro 8

Perdigueiros

Na minha vida nunca tinha havido muito lugar para animais domésticos, e a simpatia por eles pouco mais longe ia do que, quando o testemunhava, protegê-los da crueldade alheia.
Uma única vez estive a ponto de trazer de Óbidos um cão que, tão desesperamente ladrava agarrado ao carro, e saltava para o capot para que não o abandonasse, que parecia alma de gente a pedir ajuda. As pessoas que ali estavam aconselharam que o ignorasse e, antes que pudesse evitá-lo, correram-no à pedrada.
Semanas depois, arrependido de o ter abandonado, e traumatizado pelo modo do animal, voltei a Óbidos, mas não consegui encontrá-lo.
Oito anos atrás Iannis entrou no meu viver. Ainda cachorro, esfomeado, coberto de pulgas, vadiava em Mykonos, quando teve a sorte de cruzar o caminho de uma alma caridosa que se apiedou do seu destino e o trouxe para Amsterdam.
Entretanto tornou-se um belo animal, sensível, carinhoso e alegre, com a particularidade de não compreender que, nestas paragens pacíficas, as lebres e os coelhos têm mais curiosidade que medo e, sem pressas, zombam da sua arte de caçador.
A bizarra e inexplicável coincidência, por minha vontade chamar-lhe-ia mistério, é que na infância fui “adoptado” por um cão perdigueiro que dia e noite me acompanhava. O de Óbidos era perdigueiro. Iannis é perdigueiro.