sexta-feira, Setembro 14

Miudezas (5)

Nirad Chandra Chaudhuri (1897-1999). Escritor indiano. Para alguém constantemente afligido por doenças, é excepcional que tenha atingido os cento e dois anos.
Na década de cinquenta recordo-me de que li dele The Autobiography of an Unknown Indian, a qual me fez impressão bastante para nessa altura ter anotado as palavras com que terminava: “I feel that I shall be content to be nothing for ever after death, in the ecstasy of having lived and been alive for a moment.”

A minha vida parece mais feita de leituras que de vivências e acontecimentos. São escassos os meus contactos sociais e, no dia-a-dia, tenho mais instantes de observação e pensamento que propriamente de acção. Ao teatro não vou, ao cinema deixei de ir, concertos não frequento, nos museus não entro... Leio, leio, com certeza tresleio.

- Estás a tornar-te um velho rabugento, azedo, sem paciência para com os outros.
Ela disse-o a sorrir, mas creio que convencida de que assim é, e eu talvez tenha de conceder que tem razão. Mas como não ser impaciente com quem, muito satisfeito consigo próprio, debita asneiras ou futilidades?
Não é que me importe por aí além o tempo perdido. Importa-me, sim, que algumas (de facto quero dizer muitas) das conversas que sou obrigado a ouvir tomam a forma de poluição. Ou de agressão. Têm má influência sobre os meus pensamentos, a minha atitude, o meu equilíbrio mental, empobrecem-me a sensibilidade. E, sobretudo, deixam-me exausto.