quarta-feira, Setembro 12

A matança

Ao findar do ano terão andado para cima de 600 milhões de turistas às voltas e reviravoltas no planeta. Imensa legião que, confusa, de boca aberta, danifica, desgasta, destrói e, retornada a casa, precisa de fotografias e vídeos para se dar conta do que viu e por onde andou.
Em voga estão as férias com a finalidade de contactar as raízes, eufemismo de que a indústria e as autoridades do turismo se assenhorearam para incentivar outros modos de visita e vivências supostamente genuínas e diferentes.
Umas vezes incluem-se nelas usos e costumes, noutras inventa-se um romantismo histórico, ou pregam-se aos pagantes as vantagens de regressar ao primitivismo. Nas versões mais destrambelhadas vestem-nos com peles de animais, como na pré-história, ou põem-nos de tanga, a fingir de índios.
Em França, com o intuito de familiarizar os citadinos com as coisas boas da antiga vida do campo, as agências de viagem propõem agora “a tradicional matança do porco.” E eu pergunto-me que razões, fora a doentia curiosidade ou a estupidez, levarão um vizinho meu aqui em Amsterdam, ou o morador dum quarto andar em Paris, Oslo, Frankfurt, a abrir a carteira para participar no acto.
Raízes que o puxem lá, provavelmente não tem. Que compra então? A miragem de que, assistindo, compreende o que a matança significava para os que a faziam por necessidade? Duvido. Aquilo é apenas espectáculo, e mau, separado anos-luz da quase reverência que, na minha juventude, rodeava a matança do animal que garantiria parte do sustento da família o ano inteiro.
A facada era certeira, dada por homem entendido para que o sofrimento do animal fosse breve. Do ventre tirava-se-lhe a bexiga, que seria a bola do nosso futebol. Na cozinha alinhavam-se os alguidares com a carne em vinha d’alhos. Enchiam-se as chouriças, as morcelas, os salpicões e os paios, que enfiados em varas ficariam a defumar alto sobre a lareira. Junto deles os presuntos. O toucinho enterrava-se na arca da salmoura. O unto derretido arrefecia em potes de barro. Metade do lombo levava-se de presente aos vizinhos, que retribuiriam.
Antes do almoço, solene, de mesa grande, o mais velho rezava as graças.
- Amém! - respondiam os presentes. O burburinho da persignação abafado pelo matraquejar dos garfos e o tilintar dos copos. A conversa viria depois de saciada a fome, os homens sentados ao lume, as mulheres de volta à louça e aos arrumos.
Era entre Novembro e Dezembro, quando o frio apertava.
No folheto que tenho aqui, a agência oferece durante todo o ano a “tradicional matança do porco”, num espectáculo de duas horas, seguido de barbecue, danças folclóricas, e a oportunidade de comprar produtos genuínos do artesanato local.