quarta-feira, Julho 4

Livro de contas

Numa velha pasta de arquivo encontro por acaso um livro de contas que pertenceu a meu pai. Datado de 1956, o ano em que vim para a Holanda.
Contas da lavoura. Do rendimento das oliveiras e das amendoeiras, da colheita do centeio, quanto recebeu pela venda da madeira de sete pinheiros, o que pagou por um leitão para engordar e matar no ano seguinte. Como vendeu ao desbarato quinhentos litros de vinho que começara a avinagrar. Uma lista com os nomes dos que contratou à jeira, quanto teve de lhes pagar em dinheiro e em mantimentos.
Essa lista interessa-me mais do que o resto. Conheci a todos os que nela estão, cada nome aviva a lembrança de um rosto, de um modo, é como se folheasse um álbum de fotografias.
Ao mesmo tempo apodera-se de mim uma funda melancolia. Os salários eram de miséria, a lista de mantimentos - dois litros de azeite para um, um quilo de carne para outro, um saco de cereal, dois quilos de arroz - a apontar para as casas onde havia fome.O tempo e a melhoria da vida curaram as feridas e, porque eles muitas vezes mo têm dito, os que ainda vivem e sofreram preferem esquecer esse tempo. É a mim, que não sofri, que a recordação talvez mais dói.