quinta-feira, Junho 28

Que lhe hei-de fazer?

Que lhe hei-de fazer, se nasci assim, se sinto assim? Se nuns casos me falta a força para mudar, se noutros me falta a vontade, e noutros ainda me rebelo contra a mudança? Por que motivo justificar, explicar ou desculpar-me das minhas antipatias? Tenho-as, são coisa assente. Não suporto bêbedos, mulheres de cabelo cortado à escovinha, pedantes, bajuladores, os que seguram os copos de vinho pela base, os detentores da verdade, os salvadores do mundo...
A lista é comprida demais para caber aqui.

Um actor, um bailarino, um artista plástico, um músico, juntam ao esforço intelectual um esforço físico. Dessa conjugação, suponho eu, resulta uma certa harmonia entre cérebro e corpo.
Ao contrário deles o escritor, nas infindas horas que passa sentado, os olhos fitos no écrã do computador, na folha de papel, ou na imutável parede fronteira, vai-se lentamente ensimesmando, definhando, ou pior: supondo que o mundo é como ele no seu buraco o imagina.
Temo que seja isso o que está a acontecer comigo. E não deve ser da velhice.
Felizmente, sempre tenho sentido que não pertenço por inteiro, ou como já ouvi dizer a alguém: “Vim a este mundo a passeio, não vim em viagem de negócios.”