terça-feira, junho 12

Mauser 6,35

É ilegal e pelo que sei até pode dar pena de prisão, mas suponho que mesmo no extraordinário acaso de ler isto, a Polícia não me vai entrar em casa.
O facto é que tenho uma pistola. Instrumento sem função, porque não me vejo a dispará-la, e contudo causadora de certo fascínio. Deu-ma meu pai há-de haver meio século, talvez por saber que eu desde pequeno lha cobiçava. Ou talvez não.
É uma Mauser de calibre 6,35, como está gravado num dos lados da culatra, juntamente com um W deitado e dois sinais, tão minúsculos que, mesmo com uma lente não é possível decifrá-los. No lado oposto lê-se em cursivo 358454 Mauser-Werke A.G. Oberndorf A.N. No apoio da culatra tem o distintivo da fábrica, enquanto por baixo do cano está uma espécie de brasão com uma cruz de Santo André, as letras P.V. e uma figura minúscula semelhante a um leão que arremete.
Nada sei de armas, mas o brasão, a cruz, as letras e o leão mostram uma feitura que denuncia antes coisa de amador do que trabalho de indústria. Meu pai comprou-a no final dos anos 30 a um carabinero que, durante a Guerra Civil de Espanha, tinha com ela matado um vizinho comunista e, cheio de remorsos, queria desfazer-se da recordação.
Essa era a história nos dias em que estava sóbrio. Com os copos mudava o enredo e eram outros os personagens: tinha-lha dado o pároco de Goyán, na Galiza, antes de ser preso por ter assassinado a amante.
A esta versão acrescentava por vezes detalhes que eu achava fascinantes: os aldeãos a querer linchar o cura, este caído de joelhos no tribunal, os filhos da vítima a jurar vingança...
Numas tantas ocasiões da sua vida, e com razão de sobra, não lhe terá faltado vontade, mas suponho que meu pai nunca matou ninguém. Eu, contudo, bem gostaria de saber o que o moveu no dia em que, sem mais nem menos, a tirou da gaveta onde a guardava, meteu-ma na mão e disse:
- Fica com ela. Leva-a. Não a quero cá em casa.