sábado, junho 23

Autodefesa

As circunstâncias em que os meus antepassados viveram continuam a parecer-me irreais, e ainda me chocam, ainda me assustam.
Conheço aflições e dores, o desespero, medos, mas não como os deles, que eram incríveis. Protecção contra os homens, só tinham a dos seus braços; contra as violências da Natureza ou a cólera de Deus, não tinham nenhuma; para se defenderem da moléstia tomavam chás, levavam oferendas à igreja.
Mau grado a variedade sem fim que a vida moderna numa grande cidade oferece, queixo-me, sem razão, da monotonia dos dias. Mas como terá sido o dia-a-dia de quem tinha sempre os mesmos montes diante dos olhos, e vivia agrilhoado à rotina da lavoura?
Eu, que essas circunstâncias testemunhei, mas não sofri, tenho tendência para romantizá-las. Deve ser uma forma inconsciente de autodefesa.