quarta-feira, maio 9

Correio

As causas mais plausíveis procuro-as na solitude da minha infância e dos princípios da mocidade, e hoje quase descreio da febre, da grande expectativa que tomava a rua à chegada do carteiro.
No meu caso expectativa infundada, pois correspondência para mim não vinha nenhuma, e a de meus pais era escassa, quase unicamente de minha avó que, da aldeia, dava notícias de mau agouro em cartas que eram um rosário de doenças, mortes de gente, malinas do gado, tempestades e colheitas perdidas.
Mau grado essa experiência negativa o meu fascínio pelo correio manteve-se e, a partir dos catorze ou quinze anos, durante quase meio século fui um correspondente expedito e fiel, escrevendo centenas, talvez milhares de cartas.
Que aqueles a quem eu escrevia nem sempre eram prontos na resposta, punha-o eu à conta das imperfeições do mundo, bastando-me a alegria de esperar o carteiro que, em tempos remotos, distribuía duas vezes ao dia, e por fim três.
Em parte pelo desinteresse que vem com a idade, mas também porque o hábito da troca de cartas está a desaparecer, hoje em dia provavelmente não escrevo mais que uma dezena por ano.
O hábito de esperar pelo correio, esse ficou. Mas o que ele mais me traz são revistas, contas para pagar, publicidade, avisos dos impostos. Esporadicamente, de mistura com os postais dos aniversários e das férias, lá vem uma carta que, com envelope, selo e carimbo, tem já qualquer coisa de obsoleto.
Dado o meu carácter, e a melancolia que me toca quando qualquer coisa se perde ou desaparece, deveria sentir-me assombrado. Mas assim não é.
Antes de me dar conta de que as cartas começavam a escassear, já eu me tinha convertido ao correio electrónico. No começo, uma dezena de anos atrás, usando os laboriosos e imperfeitos programas de troca de dados desse tempo, passando de seguida à Internet e aos milagres do e-mail.
O interesse pelo correio clássico diminuiu em mim de tal modo, que hoje acho absurdo o tempo que passei à espera da chegada do carteiro, e as crises de impaciência que me causavam os seus atrasos.
Mas, inconsequência dos comportamentos e dos hábitos, mais tempo perco agora a abrir a caixa do correio electrónico, não sei quantas vezes desde que me levanto até que me deito, e a deixar que se me estrague o humor quando a encontro vazia.